Qual é o lugar da ADVOCACIA no mundo em transformação?

Qual é o lugar da ADVOCACIA no mundo em transformação?

 

Parece evidente que o mundo está se transformando de forma brusca, gerando a alocação da humanidade em um “não-lugar”. Explico: é bastante confortável criarmos rótulos e colocarmos as coisas como se coubessem perfeitamente dentro de cada caixinha e tudo se comportasse de modo esperado segundo o padrão. Por isso, a humanidade foi criando conceitos como se fossem “lugares”, rotulando tudo. E todas as vezes em que algo transborda essa caixinha, o “nâo-lugar” surge, incomoda, faz com que saiamos da zona de conforto. E estamos em um momento de muitos “transbordamentos” e mudanças.

A insistência em criar rótulos continua, como se fosse possível sabermos exatamente onde estamos e para onde vamos. Assim, há apego enorme em sustentarmos paradigmas como “Mundo V.U.C.A.”, “Advocacia 4.0”, “Revolução Digital”, entre tantos outros rótulos, que, ao final, dentro desse processo de mudança tão intenso, talvez os conceitos que hoje se sustentem acerca dessas expressões poderão soar meros clichês.

Assim, independente do conteúdo que vá caber dentro dessas caixinhas rotuladas, uma coisa parece-nos inevitável: reconhecer que há um processo de mudança na advocacia. E a pergunta que não quer calar: qual é o lugar da advocacia no mundo em transformação? Seria absoluta pretensão encontrar uma resposta pronta a esse questionamento no momento em que estamos. Apesar disso, temos algumas balizas que já foram postas e, em alguma medida, já nos indicam a direção para a qual partiremos.

Richard Susskind escreveu o livro “ Tomorrow´s Lawyers: an introduction to your future” em 2013 e buscou trazer uma reflexão acerca do futuro da advocacia, sobretudo diante da utilização de novas tecnologias aplicadas ao Direito. O autor coloca em voga novas habilidades que serão exigidas dos advogados no futuro e que as grades curriculares das faculdades, infelizmente, ainda não ensinam.

É importante passarmos a pensar qual será o papel da advocacia diante do alargamento da utilização de inteligências artificiais, sobretudo pelos Tribunais. Ora, talvez possa parecer audácia, mas penso que essa expansão das novas tecnologias para o Direito, corrobora para aumentar a importância dos advogados, ao contrário do que muitos podem pensar. Sim, sustento que os advogados nunca foram tão importantes, em razão da necessidade que teremos de atuar tecnicamente para efetiva fiscalidade dos inputs de dados e outputs dos robôs. É claro, isso exigirá dos advogados a aquisição de novas competências. E vamos precisar nos preparar para isso.

As normas continuarão como diretriz para o exercício da advocacia, que deverá passar a atuar com uma visão multidisciplinar, incorporando conhecimentos acerca de tecnologia, economia, psicologia comportamental e filosofia, entre outros. Sim, filosofia! A advocacia passará a ter um papel diferente do que tem hoje, mas não menos importante. Afinal, a observância a direitos e garantias são fundamentais e não há máquina ou robô que vá conseguir incorporar a dimensão ética, que (ainda) é intrínseca aos humanos. E essa dimensão ética é incorporada pela filosofia. Isso pode parecer estranho e distante agora, nesse exato momento. Mas, no futuro, quando percebermos que há uma brutal diferença entre linguagem humana (narrativa) e linguagem de máquinas (matemática), ficará clara a percepção de que matemática não incorpora ética.

E, assim, teremos que retomar o percurso, e entendermos que as ciências humanas jamais serão esmagadas por quaisquer tecnologias. E a advocacia terá uma responsabilidade cada vez maior, no sentido de atuar para os propósitos sociais mais importantes: ampliação do diálogo para a construção de decisões democráticas. E não há robô que vá fazer isso em nosso lugar.

Assim, ouso sugerir que a advocacia, ao contrário do que muitos sustentam, terá um papel cada vez mais importante e fundamental, multidisciplinar, e voltada à construção da efetiva cidadania. É minha aposta. A advocacia não será colocada em caixinhas rotuladas. Vamos transbordar e transformar.

 

 

 

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